Muitas semelhanças foram encontradas nos relatos de pesquisadores e lideranças de movimentos sociais de uma dezena de países da América Latina que estiveram presentes ao Encontro Internacional de Ecologia de Saberes – Construindo o Dossiê Sobre os Impactos dos Agrotóxicos na América Latina . Boa parte delas está relacionada às consequências do modelo agrícola baseado na monocultura no Brasil, Paraguai, Costa Rica, Peru, Chile, Equador, entre outros: expulsão de trabalhadores do campo e concentração econômica nas atividades de  produção, transformação e comercialização, além do aumento do uso de agrotóxicos.

Nesse cenário, as populações dos países da região viram, nos últimos anos, o crescimento do uso dos agrotóxicos nas lavouras. Os dados da Red de Acción em Plaguicidas y sus Alternativas para América Latina (RAP-AL) confirmam os relatos. A Argentina, por exemplo, chegou a 400 milhões de litros em 2012. O Brasil passou de 650 para 850 milhões de litros entre 2008 e 2011. “Uma das promessas dos transgênicos era que seriam usados menos agrotóxicos, mas o resultado foi o contrário”, disse Javier Souza, da RAP-AL, durante o debate A questão dos agrotóxicos na América Latina, na manhã da quarta-feira, 23.

Os governos nacionais, na avaliação do pesquisador argentino, facilitam as condições para os agronegócios, promovendo isenções fiscais e facilidade para exportação, mas restringem o suporte à agricultura familiar e camponesa. “Tem políticas fortes para o agronegócio e suporte mínimo para a agricultura familiar”, disse, lembrando que o resultado é que a produção de alimentos perde força. “Isso deves ser um alarme para nós”, alertou.

A transformação de gêneros agrícolas em produtos para exportação reduz a capacidade de produção de alimentos pelas populações. “Vivemos uma afronta à soberania alimentar da América Latina, estamos [os países] produzindo soja para alimentar gado e porco na Europa, madeira para exportar, cana para biodiesel”, avaliou Javier Souza.

Mobilização contra o gigante de pés de barro

Em resposta a esse senário, o procurador da República Bruno Serafim, do Fórum Nacional de Combate aos Efeitos dos Agrotóxicos sugeriu como estratégias articulações, participação social, proposição de leis municipais para proteção à saúde e ao meio ambiente e a fiscalização pelo Ministério Público. “Precisamos de estratégias locais, começar por baixo, por isso gostei da referência ao gigante de pés de barro”, disse, referindo-se à imagem usada durante o debate.

Os movimentos sociais do continente estão, de fato, mobilizados contra o uso de agrotóxicos em campanhas nacionais e latino-americana. Organizadas para fazer frente à transformação de alimentos em mercadorias, as campanhas foram criadas a partir de iniciativas locais já existentes.

As campanhas vêm conseguindo denunciar para a sociedade que agrotóxicos matam, mas também que existem alternativas nas formas de produção históricas dos camponeses. “Falar da experiência da campanha é falar que nesse momento precisamos colocar os diferentes conhecimentos para dialogar entre si, ou vamos cair na armadilha do capitalismo que é nos fragmentar”, disse o coordenador da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e pela Vida, Cleber Folgado, do Movimento dos Pequenos Agricultores, durante o debate Métodos de ecologia de saberes para ações e políticas públicas de saúde relacionadas aos agrotóxicos.

Ele avalia que, no Brasil, uma das conquistas da campanha foi a capacidade de aglutinar em torno de quatro bandeiras comuns. Aa bandeiras são (1) o fim das pulverizações aéreas – que deixam 70% dos agrotóxicos espalhados pelo ambiente; (2) o fim das isenções fiscais para o uso de pesticidas na agricultura; (3) a importância da preparação e sensibilização de profissionais de saúde e (4) da educação para o tema.

O caso da pulverização aérea em Rio Verde, GO, demonstra a importância das quatro pautas, pois a fumigação aérea só pode ser percebida porque professores e diretores da escola reagiram e procuraram serviços de saúde – que não conseguiram dar respostas satisfatórias aos casos de intoxicação. [O caso é contato no filme Pontal do Buriti – Brincando na chuva de veneno, exibido durante o encontro]

 

Dossiês: estratégias para colocar o debate na sociedade
Nas últimas décadas, diversos dossiês foram importantes para colocar o tema dos agrotóxicos na pauta da sociedade. Há 50 anos, a norte-americana Rachel Carson escreveu o livro “Primavera silenciosa”, mostrando como o uso dos agrotóxicos tinha impacto sobre áreas como a pesca, a alimentação de pássaros e a saúde humana. Inicialmente ridicularizada, a pesquisa tornou-se referência anos depois.

No Brasil, o lançamento do Dossiê Sobre os Impactos dos Agrotóxicos na Saúde, pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco),  em 2012, gerou resultados expressivos para tornar o tema visível na sociedade, conseguindo inclusive espaço na imprensa.

Dessa experiência exitosa surgiu a proposta de criação de um Dossiê Latino-Americano sobre os Impactos dos Agrotóxicos, em debate durante o I Encontro, segundo Fernando Carneiro, professor da Universidade de Brasília e membro da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).