“Se sua filha perguntasse o que é agrotóxico, o que você responderia?”. Essa foi uma das perguntas que Boaventura de Sousa Santos fez à peruana Maria Tempora, participante do Encontro Internacional de Ecologia de Saberes – Construindo o Dossiê Sobre os Impactos dos Agrotóxicos na América Latina. Na quarta-feira, 23, o sociólogo português inverteu papeis de palestrante e público para mostrar como entende ser possível colocar em prática a Ecologia de Saberes, uma proposta criada por ele. Com microfone em punho, Sousa Santos levantou-se e percorreu o auditório da faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará conversando com participantes. Mostrou que todas as pessoas, a partir de sua experiência, têm contribuições aos debates.

Perguntada sobre se não seria mais caro consumir alimentos sem agrotóxico, uma senhora prontamente respondeu que não, pois é ainda mais caro pagar remédios para resolver os problemas de saúde gerados pela comida com venenos. Mas também houve quem questionasse a ideia de que alimentos sem veneno precisam ser mais caros, argumentando que a produção precisa ganhar escala e não deve ser render à lógica de oferta apenas para quem pode pagar mais, prejudicando as populações mais pobres.

Em meio às conversas, Sousa Santos definiu Ecologia de Saberes como “um esforço de partilhar saberes, para que os conhecimentos diferentes, específicos, sejam complementares”. No entanto, ele ponderou que essa partilha é “difícil atualmente porque o conhecimento científico está distante do popular. Há uma questão de poder”. Justamente por isso, a Ecologia de Saberes precisa se preocupar em colocar os saberes em situação de igualdade.

Para ele, a prática transforma a ciência ao compreender que há várias maneiras de construir o saber. Sousa Santos alertou para o cuidado de não promover os diálogos com “critérios e protocolos que estão consignados na ciência hegemônica”. E concluiu: “Praticar Ecologia de Saberes não é só trazer outros saberes para a ciência, é mudar a própria ciência”.