(*)

O III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) reuniu 2200 participantes em Juazeiro da Bahia, no mês de maio de 2014. Dos cerca de 2200 participantes, 70% eram agricultores envolvidos com a prática da agroecologia e 50% eram mulheres.

Paulo Petersen, coordenador Executivo da AS-PTA – ONG que assessora organizações da agricultura familiar e movimentos sociais do campo e esteve na organização do ENA – conversou com o Observatório, avaliando o encontro.

Na entrevista, ele fala sobre como a agroecologia relaciona-se com a saúde, dos desafios para o próximo período para a construção do movimento agroecológico, dos resultados e métodos do ENA, em particular da expressiva participação de mulheres.

Confira a entrevista:

Observatório – Saúde foi uma das palavras do lema do ENA. Como se chegou a isso?
Paulo Petersen – A pergunta geradora do III ENA foi: Por que interessa à sociedade apoiar a agroecologia?A partir das experiências, queríamos demonstrar que a agricultura de base agroecológica promove múltiplos benefícios não só para os agricultores, mas para o conjunto da sociedade.
O ENA é um encontro de caráter político. Temos consciência de que apoio de crescentes segmentos da sociedade é condição fundamental para que a agroecologia seja incorporada como referência nas políticas de Estado. A questão da saúde é chave na construção dessa compreensão mais ampla sobre o papel da agroecologia. Por isso, o lema do III ENA articulou três ideias chave: alimentar a saúde – ressaltando que a saúde é promovida por relações mais harmônicas com a natureza, a começar pela qualidade dos alimentos que consumimos; cuidar da terra – que a dimensão ecológica do desenvolvimento; e cultivar o futuro – que enfatiza o critério da sustentabilidade

Observatório – Do ponto de vista da relação entre Saúde e Agroecologia, o que o encontro agregou?
Paulo Petersen – A agroecologia é um enfoque importante para orientar as trajetórias de desenvolvimento rural.
Há outros movimentos na sociedade que também têm colocado questionamentos ao estilo de desenvolvimento dominante e ao seu impacto na sociedade. Buscamos construir diálogos e convergências com esses movimentos. Os movimentos da saúde coletiva são importantes aliados nessa construção. No Brasil, particularmente, a Abrasco tem sido uma forte aliada da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e inclusive foi uma das organizações que estiveram presentes no ENA. Outras organizações do campo da saúde são o Conselho Federal de Nutrição e a  Pastoral da Saúde.

A saúde coletiva, a saúde humana, tem íntima relação com a saúde ambiental. Está cada vez mais claro para a sociedade que a forma como o agronegócio se apropria e organiza o espaço rural gera uma série de efeitos negativos para a saúde. Por exemplo: o Brasil é atualmente o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e as estatísticas mostram crescimento vertiginoso dos problemas de saúde decorrentes disso. Ao contrário do que afirma a indústria de agroquímicos, temos demonstrado que o uso dos agrotóxicos não é um mal necessário. É possível produzir quantidade, qualidade e diversidade de alimentos sem empregos dessas tecnologias nocivas. O espírito do III ENA foi demonstrar para a sociedade essas possibilidades efetivas, que estão em prática em todas as regiões do país, apesar de receberem pouco apoio e de serem cada vez mais ameaçadas pelo avanço do agronegócio.

O ENA foi evento com forte presença de agricultores e agricultoras que colocam em prática muitos princípios de produção e de acesso aos mercados coerentes com a agroecologia. Ao mesmo tempo, sofrem os impactos negativos do modelo dominante de agricultura. Vimos esse contraste entre benefícios das experiências de agroecologia e os efeitos negativos dos sistemas agroalimentares dependentes de químicos transgênicos. O domínio do varejo alimentar por grandes empresas que oferecem alimentos cada vez mais industrializados é a principal razão do aumento vertiginoso dos índices de obesidade que se verifica em todo o mundo. O Brasil não foge a essa nefasta tendência. As experiências que levamos ao III ENA demonstram a possibilidade de reaproximação entre os produtores e consumidores, ou seja, uma distribuição dos alimentos com menor intermediação da indústria e das corporações do varejo. Essa reaproximação, permite que o alimentos consumidos sejam mais frescos, mais baratos e mais saudáveis. Além disso, esses canais curtos de comercialização têm um efeito positivo na redinamização da economia das áreas rurais.

Atualmente, vivemos um grande paradoxo. O mundo rural é um grande importador de alimentos e exportador de matérias primas para a indústria. É isso o que explica a expansão desmedida das monoculturas – soja, milho, eucalipto, pecuária. O espaço rural está cada vez mais dominado por essa forma de produção em larga escala, de baixa diversidade biológica e que faz com que as paisagens rurais se tornem monótonas. Essa opção traz efeitos enormes sobre saúde coletiva e sobre o meio ambiente. A monocultura é uma estilo de produção que gera efeitos ambientais em cadeia:  a degradação do solo e a homogeneidade biológica favorece o aparecimento de insetos-pragas e doenças. Pragas e doenças são apenas o sintoma de um desequilíbrio provocado pelo estilo de produção. Para combater esses sintomas  lança-se mão de um arsenal químico altamente deletério à saúde ambiental e à saúde humana. Cria-se assim um círculo vicioso de mais degradação e mais uso de agroquímicos. Ao mesmo tempo que a agroecologia compreende esse fenômeno, propõe estratégias de produção e consumo eficientes do ponto de vista técnico e econômico sem lançar mãos dos químicos.

Observatório – O ENA teve todo um cuidado com a metodologia de construção de debates e experiências. Você entende que essa experiência possa ter influências em outros processos?
Paulo – Sim. Ontem mesmo escutei isso de um representante de uma organização do estado de Sergipe presente ao III ENA. Temos um processo de aprimoramento da metodologia desde o I ENA. Todos os debates são feitos em cima de experiências, não são discursos abstratos. Isso marca diferença com outros eventos. Contamos com o apoio de pessoas que ajudam a teorizar a agroecologia, mas não para fazer um debate abstrato e descolado da realidade. Os depoimentos de agricultores e agricultoras são a base para ancorar nossos debates na realidade concreta, cuja complexidade não é captada pela estatísticas sobre o mundo rural.

Temos uma série de métodos desenvolvidos ao longo do tempo para que as pessoas se sintam a vontade para contar suas experiências e para que elas sejam registradas. A proposta é enfatizar o emprego da linguagem oral, articulando-a com várias expressões da cultura como a poesia, a música, a feira de saberes e sabores. Inauguramos no III ENA duas novas estratégias: a facilitação gráfica que foi usada para a relatoria dos debates  e as instalações pedagógicas, que foram formas de sistematização do conhecimento coletivo sobre as disputas pelos territórios vivenciadas pelas populações.

A grande virtude desses instrumentos foi termos conseguido sintetizar os aspectos comuns vivenciados no Brasil inteiro, apesar da enorme diversidade de experiências e identidades socioculturais.  Normalmente as diferenças são os aspectos mais ressaltados. Promover a agroecologia significa reconhecer e valorizar essa diversidade, mas, ao mesmo tempo, precisamos identificar o que é comum, o que une. Sem esse exercício, torna-se impossível construir coesão a um movimento que se pretende nacional. Desse ponto de vista, pelos depoimentos que escutamos, o III ENA foi muito bem sucedido.

Os conteúdos foram condensados em uma carta política, que tem função tanto de ser uma referência para movimentos da agroecologia no Brasil como de possibilitar diálogo entre a ANA e o Estado. Ela tem análises, proposições e críticas e é uma referência construída coletivamente.

Observatório – Pra onde o esforço de construção do ENA vai levar? Quais são os próximos passos, desafios, perspectivas para o movimento agroecológico, em suma, o que vem por aí?
Paulo – ANA é uma rede de redes. A ação descentralizada nos estados cabe aos movimentos e organizações de cada estado. O desafio da ANA é articular essas ações localizadas e autônomas em âmbito nacional. Temos que nos expressar unitariamente frente ao Estado e à sociedade. Somos desafiados a apresentar propostas em torno a variados aspectos das políticas públicas. Ao mesmo tempo, estamos desafiados a continuar demonstrando a superioridade da agroecologia em relação ao estilo dominante de desenvolvimento rural.

Esse desafio não pode ser assumido isoladamente pela ANA. Por isso a importância estratégica de alianças com outros movimentos e redes: a Abrasco vai promover Simpósio sobre saúde e ambiente. Estaremos lá para  apresentar e debater  os resultados do III ENA. A Rede Brasileira de Justiça Ambiental também vai promover o seu encontro. Os acúmulos do III ENA também serão  analisados nessa oportunidade.

Observatório – E em relação ao governo federal?
Paulo – Um grande desafio é que hoje o Brasil tem uma Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. Essa política resulta da pressão da sociedade civil. Mas temos consciência de que ela é ainda bastante insuficiente se de fato queremos promover mudanças estruturais no campo brasileiro. Deixamos isso claro para o ministro Gilberto Carvalho, que esteve na plenária final do III ENA. Nosso desafio é de ampliar e aprofundar o Plano. Muitas medidas que propusemos não foram incorporadas ao Plano. Em um país como o Brasil, um dos elementos chave para a promoção da agroecologia é a reforma agrária. Ela está paralisada e não é contemplada no plano. A reforma agrária é elemento chave porque sem acesso à terra, aos bens naturais, torna-se  impraticável estabelecer uma gestão de base agroecológica. A liberação dos transgênicos e sua rápida expansão nos campos brasileiros é outro entrave. Pouco a pouco, os transgênicos vão inviabilizando a produção de base agroecológica, porque vão gerando o fenômeno da poluição genética. O mais incrível é que essa liberação é feita sem que os impactos sobre saúde e o meio ambiente sejam avaliados por pesquisas independentes. Um verdadeiro crime.

Mas, ao mesmo tempo, assistimos avanços. Não podemos deixar de reconhecer que esse foi o primeiro governo que oficializou a agroecologia como política de Estado. Vamos continuar atuando, nos estados e no nível nacional, para alargar nossas conquistas, para ampliar a escala de nossas experiências. Só assim será possível mudar as orientações do Estado para o desenvolvimento rural.

Observatório – Como foi a decisão política de ter 50% de presença de mulheres?
Paulo –
 A ANA tem feito crescentes aproximações com o movimento feminista da mesma forma como temos feito aproximação com outros movimentos – saúde, justiça ambiental, economia solidária. Processo que chamamos de Diálogos e Convergências vem de alguns anos. A presença expressiva das mulheres em nossos encontros é uma decisão política já internalizada há muitos anos. Já no II ENA, em 2006, houve decisão de assegurar que público fosse 50% de mulheres. Delegações estaduais foram sendo compostas já com essa orientação. Sem essa medida, não se consegue criar condições para a superação das desigualdades de gênero, que se manifestam em vários planos. A presença das mulheres foi um aspecto muito valorizado. De fato, elas tiveram um papel determinante no sucesso do encontro. Organizaram seminários, manifestações políticas específicas, colocando suas agendas e pautas. É avanço político importantíssimo porque o mundo rural ainda é muito marcado pelo patriarcalismo. Tornar as desigualdades de gênero um tema da agenda política da construção da agroecologia é uma condição necessária para a avançarmos em nossas lutas.

Destaco também a presença significativa de povos indígenas no III ENA, Consideramos  que essa presença tem significado muito importante pois permite o estreitamento de alianças com povos tradicionais, que vêm pouco a pouco compreendendo e incorporando a proposta da agroecologia. Estiveram presentes 11 povos indígenas, de várias regiões do país. Apresentaram moção na plenária final afirmando que passam a assumir a agroecologia em sua agenda de luta. Sem dúvida, um avanço que trará consequências muito positivas para o enfrentamento do agronegócio e a construção da agroecologia.

(*) O texto foi republicado, com reformulações, a pedido do entrevistado, em 04/08/2014.