Um ônibus com pesquisadores e de lideranças de movimentos sociais latino-americanos saiu de Fortaleza, CE, na madrugada do dia 24 de outubro, rumo ao município de Limoeiro do Norte, região leste do estado, no Baixo Jaguaribe. Ali está localizada a Chapada do Apodi,  região marcada pela produção intensiva de frutas para a exportação com alto uso de agrotóxicos, mas também pela resistência das populações locais.

O grupo encontrou-se com a Caravana da Agroecologia, que percorre o país conhecendo realidades locais e se preparando para o III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), marcado para 2014.

Em mais de 18 horas de duração, a caravana visitou uma usina de materiais recicláveis, conheceu trechos do perímetro irrigado Jaguaribe-Apodi e percorreu canais por onde a água é distribuída. No final da tarde, os participantes conheceram o Memorial Zé Maria, construído em homenagem ao ativista assassinado em 2010, e assistiram a dois filmes projetados na praça da comunidade de Tomé.

Trajeto

Após uma breve apresentação dos participantes no centro pastoral de Limoeiro do Norte e da entrada de estudantes de universidades da região na caravana, o grupo seguiu para as visitas de campo.

Centro de triagem de materiais recicláveis e o risco à saúde do trabalhador

Caravana conversa com trabalhador da usina de reciclagem: preocupação com saúde

Caravana conversa com trabalhador da usina de reciclagem: preocupação com saúde

 

A primeira atividade da caravana foi visitar um centro de triagem de materiais recicláveis na comunidade de Carnaúbas, Quixeré. Ali, se corta, lava, prensa o plástico usado para cobrir os melões cultivados no perímetro irrigado. Depois, o material é vendido para empresas que produzem sacos de lixo. Em suma, o local é responsável pela destinação de um dos resíduos gerados pela produção agrícola.

Na visita, os pesquisadores preocuparam-se com a saúde dos trabalhadores, que manejam o material após a aplicação dos agrotóxicos sem proteção contra o veneno residual, além de trabalharem em condições de risco.

A plantação de melões é coberta por uma manta plástica, que evita a perda de umidade do solo e afasta ervas daninhas. A aplicação de agrotóxicos acontece sobre essa manta, que é retirada quando os melões crescem. Os plásticos são então retirados e levados ao centro de triagem, onde são cortados, lavados e embalados pelos trabalhadores. A água usada para a lavagem é depois aproveitada para alimentar animais e regar o solo, de acordo com o proprietário da usina. O processo foi apresentado ao grupo por um jovem trabalhador da usina.

“O processo de separação é terrivelmente contaminador. Este trabalhador não se dá conta do risco do que faz me preocupa muito, me dói vê-lo operando a máquina”, observou, preocupada, a chilena Patrícia Grau, da Associação Nacional de Mulheres Rurais e Indígenas do Chile, Anamuri. “Quando olhava o plástico nas árvores, via a imagem da morte”, comparou, assustada.

 “Quando olhava o plástico nas árvores, via a imagem da morte”

“Quando olhava o plástico nas árvores, via a imagem da morte”

“O mais grave é a grandes empresas se darem o direito de empurrar riscos do manejo dos resíduos de suas atividades para empreendedores que não têm condições de gerir aqueles processos”, avalia Rachel Rigotto, da Universidade Federal do Ceará. “Estão lidando com armas químicas”. Do ponto de vista ocupacional, trabalho expõe trabalhadores a risco de corte, risco de acidentes na prensa usada para tirar excesso de água, choque elétrico, contato com agrotóxicos na poeira e na água e esforço repetitivo.

Pedro Serafim, coordenador do Fórum Nacional de Combate aos Efeitos dos Agrotóxicos, que esteve presente à visita, o Ministério Publico pretende chamar a responsabilidade dos participantes da cadeia produtiva, desde a atividade principal até a destinação final do material.

 

 

A intervenção do Estado brasileiro: famílias expulsas e monocultura

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Grupo ouve a história da construção do perímetro irrigado, que chegou na região na década de 80

O perímetro irrigado da Chapada do Apodi é formado por 14 km de canais que levam a água do Rio Jaguaribe até a Chapada do Apodi. Apesar de elevada 100 m a nível do mar e sem água superficial, a região é plana e, quando irrigada, torna-se atrativa para a produção intensiva e mecanizada. Atualmente, são produzidas ali frutas (melão,melancia, banana, coco) e grãos (milho, feijão e soja), com uso intensivo de agrotóxicos.

 

A chegada das grandes empresas fruticultorasfoi estimulada por altos investimentos do governo Brasileiro, que implantou ali a sua política de criação de açudes por meio do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, o DNOCS. “O governo brasileiro sempre usa o discurso de trazer água, matar a sede, trazer irrigação, fixar homem no campo. Mas quando os projetos chegam no território, não se materializam assim”, contou Diego Gadelha, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, que guiou o grupo na visita.

Na década de 1980, no auge da implantação de políticas de irrigação no semi-árido nordestino, a Chapada do Apodi recebeu o perímetro de irrigação Jaguaribe-Apodi. A implantação do projeto não levou em conta as populações que ali viviam e trabalhavam. As terras de 268 famílias foram desapropriadas para a construção dos canais e do sistema de irrigação. Dessas, 197 foram inicialmente reassentadas, mas a mudança do modelo de produção, a necessidade de recomeçar a vida nos novos terrenos, os custos para montar estrutura de irrigação, a falta de apoio técnico e financeiro terminou por expulsar grande da população, que na década de 90 acabou vendendo suas terras para médios e grandes agricultores.

A população local, então, deixou de ser dona de sua terra e passou a ser empregada das grandes empresas. Essas, por sua vez, receberam fortes incentivos públicos para a instalação no local. São elas que usam a estrutura de água, energia e transporte criada pelo Estado, que fecha os olhos para os conflitos gerados pelo projeto. “Esse território só existe assim por ação direta do Estado. É um modelo espalhado por todo o Nordeste”, lembrou Vicente Almeida, pesquisador da Embrapa.

 

Troca de experiências

Depois do almoço, participantes compartilharam impressões sobre a visita

 

No início da tarde, os participantes das duas caravanas – da Agroecologia e do Seminário Ecologia de Saberes- trocaram experiências e impressões sobre a visita. Emocionados com tudo o que haviam aprendido sobre a região, os participantes latino-americanos lembraram que, em seus países, vivem situações semelhantes.

O Equador enfrenta processo de privatização da água; no Chile já existe uma geração de trabalhadores rurais com a saúde afetada pelo uso intensivo de agrotóxicos; o Paraguai lida com o impacto da monocultura de soja em seu território – muitas vezes levada por produtores. “Temos a tarefa de levar para nossos países o que vimos aqui”, disse Cynthia Mendoza, da Coordenação Nacional de Organizações de Mulheres Trabalhadoras Rurais e Indígenas, Conamuri, Paraguai.

“Nossa luta é a mesma e o que temos que fazer é nos solidarizar. Não podemos deixar que sigam nos matando. Os camponeses precisam poder eleger os modelos de produção e as políticas públicas para a terra”, destacou Alicia Toledo, da Anamuri, Chile.

 

 

A Memória de Zé Maria

A caravana visitou o Memorial Zé Maria de Tomé, na praça da igreja da comunidade de Tomé, Quixeré. Zé Maria foi assassinado com 25 tiros em 21 de abril de 2010, na estrada que leva a Tomé. Um cruzeiro foi construído no local. A morte, apesar de ter assustado muito aos outros moradores, levou à criação do “Movimento 21”, que reúne organizações da sociedade civil, pesquisadores, universidades e ativistas para manter viva a memória da liderança e a luta iniciada por Zé Maria.

O memorial conta a história de Zé Maria, mas também mostra o cotidiano das populações da região e narra sua resistência e projetos de futuro.

Memorial traz fotos, cordéis e textos sobre a trajetória de Zé Maria e da população local

Memorial traz fotos, cordéis e textos sobre a trajetória de Zé Maria e da população local

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Filmes na praça

Última atividade da caravana foi projeção de filmes na praça de Tomé

 

 

Já era noite quando os participantes da caravana colocaram os bancos da igreja da comunidade de Tomé na praça e sentaram-se para assistir a dois vídeos sobre a região. Alguns moradores juntaram-se ao grupo, outros que passavam de moto pararam para ver o que estava acontecendo.

Os vídeos assistidos foram “Chapada do Apodi – morte e vida” (27 minutos) e “Sucata de Plástico”  (7 minutos).