Manaira Medeiros

01/12/2014 14:46 – Atualizado em 02/12/2014 17:29

 

“Não queremos comida com veneno”. É com este lema que militantes da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida realizam ações em todo o País, nesta quarta-feira (3), com o objetivo de sensibilizar a população para os riscos dos agrotóxicos e apresentar um novo modelo de produção de alimentos baseado na agroecologia. A data marca o Dia Internacional de Luta contra os Agrotóxicos e alerta para a posição ocupada pelo Brasil, desde 2008, de maior consumidor de venenos no mundo.

No Espírito Santo, estão à frente das atividades o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e sindicatos.

As entidades irão realizar panfletagem em municípios do norte e noroeste do Estado, onde é intenso o uso de venenos pelas empresas, e na Grande Vitória. Os pontos alvos são locais de maior concentração de público, como praças, feiras orgânicas, rodoviárias e bancos.

A campanha pretende chamar atenção da população sobre a pulverização área de agrotóxicos; a necessidade de banimento de venenos já proibidos em outros países e que ainda são comercializados no País; fim das isenções de impostos concedidas aos agrotóxicos; criação de zonas livres de agrotóxicos e transgênicos para o desenvolvimento da agroecologia; e controle para evitar a contaminação da água por venenos.

No norte do Estado, como aponta Valmir Noventa, coordenador do MPA, os militantes irão conversar com a população sobre o modelo de desenvolvimento implantado no Estado e os impactos do uso de venenos, com foco principal na pulverização área, prática de alto risco realizada na região, sem qualquer controle, o que possibilita maior disseminação do veneno e, consequentemente, contaminação de áreas maiores. “A prática não tem legislação específica. Significa que, além de perigosa, é ilegal”, ressalta.

Segundo o coordenador do MPA, após sucessivas denúncias sobre os impactos na região, a entidade obteve sucesso apenas em Nova Venécia e Vila Valério, municípios onde a pulverização foi proibida. Nos demais, as articulações com o legislativo municipal não avançaram. “A maioria dos vereadores não tem sensibilidade ao problema e advoga em favor do setor empresarial”, completou.

No próximo ano, o MPA irá ampliar as ações nos municípios com casos de maior incidência, como Jaguaré, Sooretama, Pinheiros, Boa Esperança, Linhares e São Mateus, onde predominam as culturas de café e cana-de-açúcar, principais alvos da pulverização aérea. Embora impactante, a Campanha contra o Agrotóxico pontua que a prática é ineficiente, pois atinge no máximo 30% das plantações.

O uso excessivo dos agrotóxicos está diretamente relacionado à atual política agrícola do país, adotada desde a década de 1960. Com o avanço do agronegócio, cresce esse modelo de produção que concentra a terra e utiliza altas quantidades de venenos para garantir a produção em escala industrial.

Contribuiu para o agravamento do cenário o fato de o setor ser sustentado por um forte sistema político. Nas últimas eleições, os parlamentares da bancada ruralista aumentaram em 33% a participação no Congresso e elevaram de 205 para 273 o número de deputados e senadores no Congresso, o equivalente a 46% da Casa.

O Dia Internacional de Luta contra os Agrotóxicos, no dia 3 de dezembro,  foi estabelecida pela Pesticide Action Network (PAN) para recordar as 30 mil pessoas falecidas (oito mil nos três primeiros dias), muitas delas crianças, na catástrofe de Bhopal, Índia, em 1984. Na tragédia, vazaram 27 toneladas do gás tóxico metil isocianato, químico utilizado na elaboração de um praguicida da Corporación Union Carbide, em uma zona densamente povoada. Embora 560 mil pessoas continuem com sequelas do acidente, até hoje a corporação, incorporada a Dow Química, não indenizou as vítimas.