Fonte: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz)
Por: Viviane Tavares, 19/12/2013
Turma de técnicos e técnicas em meio ambiente homenageia o geógrafo da fome e perpetua suas ideias em assentamentos no Paraná e Santa Catarina.

 Josué de Castro, mais conhecido como o geógrafo da fome, afirmava que a fome não era um problema natural, ou seja, não dependia nem era resultado dos fatos da natureza, mas sim, era fruto de ações dos homens, de suas opções, da condução econômica que condicionava a sociedade. No dia 12 de dezembro de 2013, as ideias de Josué de Castro foram pactuadas por 23 formandos do Curso Técnico em Meio Ambiente com ênfase em Saúde Ambiental das populações do campo, durante a formatura que aconteceu no município de Laranjeiras do Sul, no centro-oeste do Paraná.
A turma formada por representantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e da Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses estudou durante um ano e meio teorias e práticas sobre saneamento ecológico, agroecologia, políticas públicas e a saúde como um conceito amplo. O curso é fruto de uma parceria entre a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz), a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), o MST e o Centro de Desenvolvimento Sustentável e Capacitação em Agroecologia (Ceagro).
O curso, com carga horária de 960 horas, tinha como intuito formar, por meio da pedagogia da alternância, trabalhadores para atuarem em seus territórios que, em sua maioria, estão localizados em assentamentos no Paraná e em Santa Catarina. A turma de técnicos em meio ambiente teve ao longo do curso, além das aulas dentro do Ceagro e da pesquisa em suas comunidades, a fase de estágio no programa de vivência de estágio no Sistema Único de Saúde (SUS), o VER-SUS, e também na Assistência Técnica de Extensão Rural (Ater), do Ministério do Desenvolvimento Agrário. Ao final do curso, todos os formandos tiveram que apresentar um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), no qual apresentaram as potencialidades, desafios e ameaças de seus territórios, por meio de uma pesquisa desenvolvida ao longo de toda a formação, com a construção coletiva de moradores dos respectivos assentamentos.

 

Formatura


Nos últimos dias de aula curso, cinco trabalhos de conclusão de curso representando a turma Josué de Castro foram apresentados.. Os educandos Rose Riepe, Teresinha Silveira, Marcos Kelvis, Gabriel Willian, Edilson Fagundes e Francisnalva Rodrigues apontaram quais serão os desafios a serem enfrentados como técnicos em meio ambiente com ênfase em saúde ambiental para as populações do campo a partir de agora. A representante do coletivo de saúde e uma das apoiadoras da coordenação do curso, Neusa Buffon, após a apresentação, afirmou que o TCC, a partir de agora, será um instrumento a ser utilizado nos territórios dos educandos. “Achei muito importante ver vocês se reconhecendo como sujeitos da história, e o envolvimento da comunidade como fator essencial para a construção de uma nova realidade. Vocês apresentaram uma visão que vai além do trabalho”, disse, lembrando que: “A construção desse curso veio em um momento muito difícil, em que tínhamos poucas perspectivas de transformação e muitas políticas compensatórias. É importante ressaltar que a luta do MST não é isolada de uma luta nacional. Hoje, queremos que vocês sejam técnicos que façam a diferença, envolvendo a comunidade. A transformação só pode ser feita dessa maneira”, destacou Neusa.
A construção coletiva citada por Neusa já era característica da turma, que fez uma música com letra e melodia composta por eles. O refrão já indica qual vai ser a prioridade desses novos técnicos em meio ambiente: “A doença é a fome e o problema é social. Preservando a natureza e combatendo o capital”, diz a letra. A decoração do local onde foi realizada a formatura também foi fruto de aulas de artesanato nas quais a turma produziu diversos objetos de decoração.
No dia da formatura, 12 de dezembro, estavam presentes a representante da direção estadual do MST Salete Mariane ; a coordenadora de Educação do MST, Maria Isabel Grein; o diretor da EPSJV/Fiocruz, Paulo César de Castro Ribeiro; o professor da UFFS, Julian Perez; o representante do Ceagro, Antônio Escobar; o representante da turma e professor da EPSJV/Fiocruz, Alexandre Pessoa; e os padrinhos da turma André Burigo, professor-pesquisador da EPSJV/Fiocruz e Elaine Macciolo, do Setor de Formação do MST. Os oradores da turma, José Rafael Batista e Sirlene Alvez Morais, fizeram a abertura da cerimônia com conselhos aos formandos: “Nossas organizações estão com muitas expectativas e já temos claro quem é o nosso inimigo, que também é o principal inimigo da saúde e dos trabalhadores do campo, é o agronegócio. Além disso, sabemos também, agora ainda mais, depois do empoderamento do conhecimento possibilitado ao longo desse curso, que a única forma de produzir sem o veneno é a produção agroecológica”, disse Sirlene.
A representante da direção estadual do MST Salete Mariane ressaltou que a área de saúde é o dilema do povo brasileiro e que uma das principais conquistas do movimento dos trabalhadores sem terra foi a formação. “Lá na base, as pessoas estão esperando por vocês, que são trabalhadores lutadores e construtores do conhecimento científico e da prática social. Fazer esse curso não foi fácil, mas o compromisso de vocês a partir de agora é muito maior. Estamos confiando em vocês”, disse Salete. Já o representante do Ceagro, refletiu sobre o momento da formatura que, segundo ele, tem um ponto de chegada, mas também um ponto de partida. “É sempre importante lembrar, assim como foi a formação de vocês, que os processos de formação política, organizativa e técnica são inseparáveis e é assim que vocês devem atuar. É preciso fazer a militância de forma técnica e ter como perspectiva a construção do socialismo”, aconselhou Antônio.
O professor Julian Perez , da UFFS, indicou ainda que a luta pela educação popular e a qualidade de vida são duas das bandeiras mais importantes do MST. De acordo com Rui, é dentro desse campo que é possível enfrentar o capital e a insustentabilidade. “Enquanto não resolvermos a questão da qualidade de vida, vai ser difícil resolver a permanência dos jovens no campo. Precisamos construir um processo de melhoria e qualificação do processo de vida e de preservação ambiental. Somos uma espécie e precisamos saber viver em harmonia com as outras espécies na Terra. A construção disso passa pela desconstrução deste outro modelo que está posto, e que não vive esse processo harmônico”, refletiu o professor, que encerrou seu discurso com uma frase do poeta espanhol Antonio Machado: “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar”.
O diretor da EPSJV/Fiocruz destacou que os esforços da Escola Politécnica sempre foram no sentido de formar trabalhadores da saúde e que a formação de trabalhadores para atuarem na saúde do campo faz parte desse processo. “O trabalho de formar pessoas do campo, no campo e para o campo, para interferir no SUS de seus territórios, é reforçar a reforma agrária e a quebra do latifúndio. Vamos à luta que é para isso que estamos fazendo esse processo todo”, saudou Paulo César.
Maria Isabel Grein, relembrou a educação como direito e uma disputa política. “A educação sempre está a serviço de alguma coisa; educamos para alguma coisa, para um projeto. Com esse curso não poderia ser diferente, e ele trouxe a percepção de compreender que o foco desta formação está nas relações com o meio ambiente” observou e aconselhou: “É preciso entender que o momento da formatura é o de formalizar um compromisso e ter em mente que nunca estamos totalmente prontos. É preciso seguir estudando. O estudo nos liberta quando ele nos compromete. Continuemos estudando e comprometidos com a coletividade, ajudando a construir uma nova sociedade tanto no campo quanto na cidade”, recomendou a coordenadora de Educação do MST.

Experiências dentro e fora de sala

Todos os estudantes, além das atividades em sala de aula e em seus territórios, participaram também de outras atividades complementares ao curso. Em uma experiência pioneira para o ensino médio e também para educandos de movimentos sociais, o estágio no programa VER-SUS pôde dar um panorama do que é o Sistema Único de Saúde e de como ele se apresenta na cidade e no campo. A parte ligada ao manejo da terra ficou por conta do estágio junto ao programa da Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater).
O professor-pesquisador da EPSJV/Fiocruz, Eduardo Barcellos, um dos responsáveis por essas atividades, explicou que essa etapa fez com que os educandos pudessem conhecer o dia a dia que seguirão a partir de agora. “No Paraná, os educandos trabalharam 100 horas com o Ceagro, que também é uma organização de Ater. Esse estágio proporciona a vivência prática e a do mundo do trabalho. Um dos desafios do curso foi como esses educandos atuariam dentro das áreas de reforma agrária. E a política da Ater consegue dialogar com a política de saúde das populações do campo, porque a Ater precisa de um profissional com um olhar da saúde que normalmente não se tem. Os cursos de ciências agrárias ou ambientais não trazem essa abordagem da saúde ou da saúde do campo. Esse profissional tem uma transversalidade, inclusive de entendimento do SUS, que tem dificuldade de se territorializar. Esse trabalhador terá, sem dúvida, essa capacidade”, explicou o professor.
Em períodos de quatro a cinco dias, também foram realizadas as caravanas, nas quais, os educandos e educadores percorreram outros territórios conhecendo diferentes realidades. No Paraná, foi realizada uma caravana para a região oeste do estado – onde há uma grande concentração do agronegócio – e o outra para o Parque Nacional do Iguaçu, onde os educandos puderam acompanhar a questão dos recursos hídricos, a partir dos grandes empreendimentos. Um dos coordenadores político-pedagógicos do curso e técnico em saúde comunitária, Marco Antonio Pereira ), afirmou que essa vivência foi muito importante porque ampliou a visão dos educandos nos temas que foram trabalhados em sala de aula. “Visitamos os barracos de lona, uma cooperativa do agronegócio e depois uma do MST para que os alunos fizessem a comparação. Visitamos ainda o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), onde morreu um companheiro nosso, o Valmir Mota, que foi um espaço de luta política”, contou Marcos.
A educadora e integrante da Coordenação Político-Pedagógica (CPP) do curso, Etel Matielo, também lembrou que o estágio do VER-SUS teve como tema a nutrição. “Realizamos a tenda Josué de Castro, onde fizemos uma série de oficinas com sementes germinadas, suco verde, temperos caseiros, entre outras propostas de alimentação saudável que debatiam também a segurança alimentar”, lembrou. A tenda também foi montada durante a Jornada de Agroecologia do Paraná no mês de agosto, mais uma atividade que contou com a participação dos educandos.

 

 Ciranda Girassol
A particularidade dessa formação é que a turma contou também com a Ciranda Girassol, uma turma de formação dos sem-terrinha, filhos dos educandos da turma Josué de Castro. A cirandeira Cleusa Santos explicou que o objetivo da ciranda é de formação dessas crianças, mas em um espaço diferenciado a uma creche. “O MST tenta trazer um espaço onde homens e mulheres possam ir à luta, dando oportunidade iguais para ambos. E a ciranda tem o conceito de ser um coletivo de crianças, na qual proporciona o cuidado, a formação crítica e humana e a voz das crianças”, disse Cleusa.
A educanda Sirlene Alves, que mora em um assentamento em Imbaú (PR) e é mãe do sem-terrinha Murilo, que participou da Ciranda Girassol, apontou a ciranda como um dos aspectos que mais avançou no curso. “Ter a ciranda facilita qualquer pessoa a estudar, tanto homem quanto mulher. Estar na sala de aula tranquila, sabendo que seu filho está sendo bem cuidado é ótimo, melhor ainda é saber que ele também está discutindo o novo homem, a nova mulher, a nova geração, também está em processo de formação. Foi uma das coisas mais importantes desse curso”, ressaltou Sirlene.

 

Construindo a geografia da fome
 Para Etel, a formação política é um pressuposto de todas as atividades de formação do MST, por isso, esse curso, além de aulas de formação técnica, também proporcionou uma formação política aos educandos. “A gente acredita que o processo de formação se dá na luta. Estamos formando 23 dirigentes e técnicos em saúde ambiental, que não terão só o debate da saúde, mas também da agroecologia e do saneamento”, destacou Etel. Com falas e posturas comprometidas durante a formatura e ao longo do curso, os 23 técnicos em meio ambiente com ênfase em saúde ambiental já deram início a atividades conjuntamente com suas comunidades.
Teresinha Silveira, educanda e agente comunitária de saúde (ACS) do assentamento Conquista do Horizonte, em Passos Maia (SC), mostra que as apostas de Etel não são em vão. Teresinha, que já atuava com o conceito de saúde mais ampliado quando acompanhava as famílias por conta de seu trabalho, disse que agora essa atuação será ainda mais efetiva. “A partir de agora, meu intuito é fortalecer às famílias, levando o debate da agroecologia e fortalecendo aquilo que já existe como a troca da semente e o trabalho da Ater, que já tenho feito como ACS”, informou Teresinha, que também promove oficinas em sua comunidade com produtos fitoterápicos. “Das 34 famílias que existem no assentamento, 16 já participaram das oficinas, e percebemos que o uso de remédio diminuiu significativamente. Posso dizer isso com certeza porque muitas vezes sou eu quem busca o remédio na cidade e os pedidos diminuíram”, contou.
O educando Iones Noimman, da Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses, de Pitanga (PR), disse que o conhecimento do conceito mais ampliado de saúde, além da experiência de conhecer o SUS mais de perto, servirá para sua atuação daqui para frente. “A gente só ouvia falar do SUS. Em nossa comunidade, as pessoas até procuram, mas não sabem o que a gente pode esperar do SUS ou quais são os serviços oferecidos e isso a gente pode levar para o pessoal do nosso território, para que eles conheçam mais o seu direito”, disse , acrescentando: “Existe um ditado que diz que ‘santo de casa não faz milagre’, mas o pessoal da minha comunidade está apostando muito no trabalho que a gente vai desenvolver, que nada mais é do que um voto de confiança por eles terem nos indicado para participar desse curso”, disse Iones, que apontou como desafio a ser desenvolvido em seu território o saneamento ecológico.