Já participou de uma reunião riquíssima, onde apareceram experiências, ideias, conexões interessantes? Já ficou desapontado quando o relato da reunião não conseguiu registrar toda a riqueza da conversa? Já achou difícil ler um relatório longo, pesado e cheio de letras em branco e preto? E, pior, quem nunca sentiu que um relato não captou o sentido dos diálogos de um encontro?

Pois os participantes do III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) trocaram experiências, práticas, sons, ideias e propostas e ainda conseguiram registrar toda essa riqueza em instalações e em grandes painéis – com desenhos, cores e letras. Produzido ao longo das atividades, os painéis registraram os debates e puderam ser avaliados pelos participantes enquanto eram desenhados.

 

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Veja aqui mais painéis.

 

Esse método de registro é chamado de facilitação gráfica e foi mais uma das inovações metodológicas do III ENA. “Nosso papel, no grupo, é filtrar informação, não deixar nada de importante de fora, mas também não poluir demais. Captar não o máximo, mas o suficiente e que não perca coisas importantes, que é o que se chama da essência. Mesmo processos mais caóticos, a colheita ajuda a não deixar que o grupo se perca”, conta Camila Scramim Rigo, uma das 13 facilitadoras das atividades do ENA.

 

A construção do ENA: instalações, caravanas e o registro de vivências, músicas e ideias

Parte da proposta do ENA era propiciar experiências e trocas que fossem além da fala, dos debates. As atividades foram baseadas em vivências e exemplos concretos, preparados pelos participantes desde os lugares onde vivem e praticam agroecologia.

Tudo começou com as Caravanas Agroecológicas e Culturais, que passaram por todas as regiões do país, envolvendo 2.500 pessoas e mobilizando atores locais para compreender seu território, pensar o fortalecimento da agroecologia e conhecer as ameaças que enfrentam.

A dinâmica do Encontro – realizado de 14 a 17 de maio, em Juazeiro, Bahia – incorporou essas práticas.

No segundo dia, os participantes visitaram instalações pedagógicas, que foram o final do processo das Caravanas. Em grandes tendas, cada Caravana contou o que viu com várias linguagens: elementos visuais e sensitivos, músicas, esquetes de teatro, tato, falas e até o caminhar. A proposta era que cada participante mergulhasse na história da caravana. Depois do percurso, houve uma roda de conversa sobre cada experiência – isso permitiu compartilhar olhares, problemas, semelhanças e diferenças entre os participantes.

No dia seguinte, seminários temáticos orientaram os diálogos. No último dia, uma plenária final foi espaço para a aprovação da carta final.

Paralelamente, uma feira permitiu vendas, trocas e interação com público de fora

A facilitadora gráfica Camila Rigo, da equipe que esteve no ENA, percebeu essa dinâmica.  “Deu pra perceber, no primeiro dia, o tanto de dedicação que houve nas Caravanas e também na sistematização. Pensaram em uma forma de trazer todo aquele conteúdo direcionado para o objetivo de relacionamento com outras regiões, sem encaixotar as regiões em modelos. A expressão foi artística, foi a cara de cada região, e isso favorece outras conexões. O registro duro faz raciocinar só com a cabeça; o registro mais livre, a instalação – que foi a opção para traduzir o que viram na região –, favorece que sim se conecte com a cabeça, mas também se perceba com o coração e com o corpo”, avalia.  Camila trabalha com facilitação de processos de grupos na Cocriar.

Depois, depoimentos de pessoas de várias regiões ajudaram a conectar o que se via com as experiências. Os painéis, então, registraram as falas e as interações, contribuindo para a construção desse novo conjunto de informações, agora não apenas ligadas às regiões, mas reunindo as ideias.

“A facilitação gráfica das várias regiões conseguiu captar muita informação e fortalecer a ideia de que a problemática é parecida, quase uma só, em todas as regiões. Há peculiaridades, mas existe um jeito de operar no mundo que é predominante hoje e que as pessoas precisam conhecer melhor, até para a própria segurança, saúde”, avalia. Para ela, o movimento agroecológico conseguiu, no ENA, organizar toda essa informação, que estava dispersa nas regiões, e com isso pode ter saído fortalecido.

Ela percebe que deixar visível o que as pessoas dizem tem uma grande potência, pois faz com que as pessoas se sintam ouvidas. “O que foi falado fica evidente. Está no painel, sem autoria, sem preocupação com quem falou, mas elas sabem que a contribuição que elas deram é uma parte daquele todo. E quando se consegue fazer isso com maestria, quando as pessoas de fato se reconhecem, isso é muito poderoso.”

 

Princípios do trabalho

Um grupo de 13 pessoas fez a facilitação gráfica do ENA. Reunidos em redes que trabalham com princípios semelhantes, ao receber o convite para um trabalho, aceitam quando se sentem conectados com o tema. “As pessoas que aceitam vibram na mesma energia, se sentem chamadas ou não para estar”, diz Camila. Assim, os trabalhos costumam ter resultados interessantes. “Quem vem são as pessoas certas”.

Camila Rigo falou ao Observatório sobre alguns princípios de seu trabalho.  Como são profissionais independentes, podem variar para cada grupo ou pessoa. Ela destaca alguns pontos importantes para sua trajetória:

Arte de anfitriar conversas significativas e colher resultados que importam: essa ideia orienta uma comunidade de práticas que reúne facilitadores de processos de grupo em todo o mundo. São pessoas que buscam menos direcionar os grupos a resultados definidos e mais manter uma postura de anfitriões, ajudando os grupos a entender para onde precisam ir.

Colher resultados que importam: a ideia é colher os frutos das conversas, para que eles não fiquem na árvore e apodreçam sem fazer com que as “coisas que realmente importam” avancem. Pessoas começaram a se inspirar em mecanismos e ferramentas de como extrair esses frutos e deixar a essência do que importa em destaque.

Metodologias abertas: os métodos usados não têm direitos autorais. Vão sendo testadas, avaliadas, e as conclusões vão sendo compartilhadas. Dialogam com ideias de conhecimento livre e construído coletivamente.

Facilitação gráfica: uma prática bastante difundida no universo das facilitações de reuniões e atividades. No Brasil, é usada desde anos 2000 e vem ganhando espaço em grupos com preocupação de compartilhamento de redes.

 

Para saber mais:

www.facilitacaograficacolheita.com.br

www.designdeconversas.com.br

www.mundoafora.com.br

http://enagroecologia.org.br