O médico Nilson Ando é diretor de Medicina Rural na Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Até o início de 2014, esteve à frente do Departamento de Atenção Primária em Saúde na cidade de Manaus, Amazonas, onde trabalhou com políticas de saúde destinadas a populações ribeirinhas.

Ele respondeu a uma entrevista do Observatório sobre os avanços e desafios do acesso à saúde para as populações rurais e ribeirinhas e a Política Nacional para Saúde Integral das Populações do Campo, Floresta e Águas (PNSIPCFA). Falou também sobre a conferência mundial de saúde rural realizada no Brasil, durante o mês de abril. As respostas foram enviadas por e-mail.

Confira a entrevista completa:

Observatório- O senhor pode nos contar um pouco sobre os principais desafios no trabalho de atenção básica em Manaus, especialmente com as populações ribeirinhas?

Nilson Ando – Em relação ao Município de Manaus muitos são os desafios, começando pela ampliação na cobertura da Atenção Básica, que no inicio de 2013 não chegava a 30% da população (atualmente chegamos próximo de 40%) e indo até a qualificação das equipes existentes. Com relação as populações ribeirinhas os principais desafios são a adaptação ao ritmo das águas dos rios, com os períodos de cheias (subida do rio – enchentes) e vazantes (descida do rio – secas) e a fixação de profissionais, o que nos remete a desenvolver estratégias como as das Unidades Básicas de Saúde Fluviais.

 

Observatório- Quais são os principais avanços já conquistados nessa área, a partir da sua experiência?

Nilson Ando – Entre os principais avanços na Atenção Básica, com foco na área rural ribeirinha, cito a melhoria no financiamento, por parte do Ministério da Saúde, reconhecendo as especificidades e diferenciais dessas áreas; o desenvolvimento das Unidades Básicas de Saúde Fluviais, que possibilitam o acesso das populações ribeirinhas aos serviços de saúde, além da fixação indireta de profissionais de saúde nessas áreas e o desenvolvimento do SAMU Ribeirinho, com utilização de ambulanchas, para atendimento de urgências e emergências nas áreas ribeirinhas.

 

Observatório- O senhor percebe impactos da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, Floresta e Águas no seu dia-a-dia como gestor?

Nilson Ando – A Politica Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, Floresta e Águas é um importante instrumento para qualificar as discussões nos diversos fóruns de discussão sobre o tema, dando base e sustentação para que possamos negociar com os demais atores envolvidos e possibilitando a tomada de decisão mais adequada.

 

Observatório– A Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade tem discutido essa política? Quais são as reflexões sobre ela?

Nilson Ando – A Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) tem discutido essa política em seu Grupo de Trabalho de Medicina Rural, tentando qualificar e consolidar as questões relacionadas, não só as especificas da Medicina Rural, mas da Saúde Rural em geral, buscando alinhar conceitos e estratégias que melhores se encaixam nos diversos cenários rurais do Brasil.

 

Observatório- Os desafios vividos no atendimento à população rural e ribeirinha da Amazônia são parecidos com aqueles enfrentados em outras regiões do país? O que é específico?

Nilson Ando – Existem vários pontos em comum, como a dificuldade de acesso aos serviços, a dificuldade na fixação de profissionais nas áreas rurais, a dificuldade no desenvolvimento da competência cultural. Entre os pontos específicos estão o isolamento geográfico, que é diferente nas áreas ribeirinhas e a influência climática no desenvolvimento das políticas públicas, com os períodos de cheias e vazantes dos rios.

 

 

Observatório- A Conferência da Organização Mundial de Médicos da Família (Wonca) foi realizada no Brasil no início de abril. O senhor pode avaliar quais foram os principais aportes do encontro para as práticas de saúde da família no Brasil?

Nilson Ando – A Conferência Mundial de Saúde Rural da WONCA foi um marco importante para o país, pela primeira vez o evento foi realizado na América do Sul e o Brasil teve a honra de sediar. Entre os aportes do encontro as trocas de experiências com países que já possuem estratégias desenvolvidas para a melhoria do acesso das populações rurais, as estratégias para fixação de profissionais nas áreas rurais e as discussões com equipes do Ministério da Saúde para a construção das novas políticas. Além disso, estamos avançando na discussão e no reconhecimento da Medicina Rural como uma área de atuação da Medicina de Família e Comunidade.