Cerca de 70 trabalhadoras rurais e trabalhadores em saúde de Minas Gerais estão reunidos na última etapa do curso de Educação Popular em Saúde Mental promovido pelo setor de saúde do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e pela Escola de Saúde Pública de Minas Gerais (ESP/MG).

Na sexta-feira, 29 de novembro de 2013, o grupo termina o curso no qual discutiu formas de acolhimento e tratamento para usuários dos serviços de saúde mental, o trabalho relativo a álcool e outras drogas, práticas populares em saúde, experiências de saúde no campo e o funcionamento do Sistema Único de Saúde.

Em Minas Gerais, o MST vem desenvolvendo há alguns anos práticas de cuidado em saúde mental. O curso contribui para organizar e aprofundar os conhecimentos. Marlene Lemes da Rocha, do município Frei Inocêncio, região de Vale do Rio Doce, conta que realiza cuidados com argilas, chás, florais e Reiki, trabalhando para evitar o adoecimento mental da população, como as frequentes depressões e o uso de álcool e outras drogas. “A discussão de saúde mental deu um nome ao que fazíamos. O cuidado é feito com as condições que temos e a formação nos enriqueceu muito”, disse. Hoje, ela sabe distinguir casos de uso de álcool e de outras drogas e trabalha com os conceitos de redução de danos.

Marlene conta que foi usuária dos serviços de saúde mental, esteve internada algumas vezes e, hoje, trabalha para evitar a internação de companheiros. “O movimento está fazendo essa discussão, deve evitar internar, deve ter o nosso acolhimento, o trabalho com toda a família”, defende. Na região onde vive, ela participa do coletivo de saúde, que tem grande participação de mulheres. “É um trabalho de formiguinha, um dia as pessoas querem, outro não; mas estamos de portas abertas”. Ela destaca também a necessidade de recursos para a manutenção do trabalho que, em geral, é custeado pelas pessoas envolvidas.

A militante Genéria Rodrigues, a Nera, da região de Vale do Rio Doce, também se envolveu com o trabalho em saúde a partir da experiência de cuidado com a filha, em 2005. Hoje, desenvolve ações de cuidado na área onde mora e defende o acolhimento de usuários de drogas e bebidas alcoólicas. E o esforço vem sendo reconhecido: “Muita gente de fora do movimento, da cidade, fica sabendo e nos chama. Tem muita gente querendo sair de tantos remédios”, lembra. O grupo não substitui remédios, mas procura contribuir com o bem estar das pessoas atendidas.

A jovem Natália Pereira Gomes, que veio do município de Japuruca para o curso em Belo Horizonte, diz ter aprendido muito e destaca a sensibilidade com o sofrimento mental. “A escola exclui, o trabalho exclui, por vezes não tem serviço de saúde. Precisamos ouvir mais, ouvir acaba com metade dos problemas”, diz.

 

Agrotóxicos, ambiente, saúde

O biólogo Fernando Carneiro, professor de saúde coletiva na Universidade de Brasília e coordenador desse observatório esteve em Belo Horizonte na quarta-feira (28) e discutiu os impactos dos agrotóxicos e do atual modelo de desenvolvimento na saúde da população do campo. Ele construiu com a turma um mapa do território do acampamento Zé Bandeira, que fica próximo ao Rio São Francisco, em Minas. Com isso, apresentou  uma metodologia de diagnóstico simples, e que ajuda a conhecer ameaças e potencialidades dos territórios, divididas entre “o que ameaça a vida” e “o que promove a vida”.

O grupo discutiu também as possibilidades de trabalho das Equipes de Saúde da Família em áreas rurais como a do acampamento Zé Bandeira. Além de atendimento aos indivíduos ou famílias, o trabalho com os elementos do cotidiano que ameaçam ou protegem a saúde também foi estimulado.

Durante o debate, Ildeni Evangelista de Souza, do município de Claro dos Poções, contou que em sua cidade as mulheres estão sendo afastadas do trabalho em plantações de banana e hortaliças durante a gravidez, devido à exposição aos agrotóxicos. Com isso, elas acabam ficando sem trabalho durante a gravidez, pois, apesar dos atestados médicos, não têm conseguido receber benefícios da previdência social. Segundo Ildeni já houve, na região, problemas na saúde de gestantes e bebês pelo contato com o veneno.

Para Carneiro, o exemplo reforça o que vem sendo chamado de feminização da contaminação, isto é, o aumento de casos de mulheres rurais contaminadas.

Durante a tarde, os profissionais e militantes reuniram-se para traçar estratégias de ação para enfrentar os problemas de saúde mental nas áreas em que vivem e atuam.

 

O curso: novas possibilidades de diálogo

Essa é a segunda turma do projeto que capacita trabalhadores da saúde e rurais para atuação em saúde mental. O grupo vem trabalhando há um ano em etapas presenciais e nas comunidades.

Os conceitos aprendidos e as discussões realizadas nas aulas são levados para as comunidades em oficinas e trabalhos de mapeamento da realidade de saúde. Os trabalhadores do SUS que participam do curso – psicólogos, agentes comunitários, enfermeiros – visitam assentamentos e acampamentos e também constroem mapas da rede de atenção psicossocial nas regiões onde atuam.

O curso valoriza as práticas comunitárias de cuidado e o conhecimento popular. Por outro lado, o fato de a sociedade entender o funcionamento e a importância do SUS termina sendo importante para fortalecer o sistema de saúde. Mas o principal resultado tem sido a possibilidade de diálogo entre trabalhadores de saúde e trabalhadores rurais.

Na avaliação de Carine Constância Alves dos Santos, médica integrante do setor de saúde do MST, o trabalho conjunto vem aumentando a articulação entre movimento social e os serviços de saúde. “É processo de sensibilização e diálogo”, avalia. “Para o movimento, há avanço na compreensão sobre o que é o SUS, o que é o sofrimento mental e questões de uso abusivo de álcool e drogas, mas com um olhar diferenciado. Para os trabalhadores, há carência de formação continuada na saúde e especificamente na saúde mental. Aumenta o diálogo, os trabalhadores em saúde vão mais às áreas, reúnem-se com a comunidade”, diz.

A iniciativa é fruto da mobilização dos movimentos sociais do campo que pautaram temas de saúde em 2011, durante o 3º Encontro de Movimentos Sociais com o Estado de Minas Gerais. Foram dois anos de construção até que chegassem ao curso, promovido pelo MST e pela Escola de Saúde Pública de Minas Gerais.

A demanda do movimento surgiu do acúmulo de debates e práticas de cuidado no setor de saúde do MST e da percepção de diversos casos de sofrimento mental relacionados ao alcoolismo nos acampamentos e assentamentos.

 

Foto: Carine dos Santos

Foto: Carine dos Santos

Texto: Priscila D. Carvalho/ Observatório
Fotos: Carine dos Santos