A abertura do I Encontro Internacional de Ecologia de Saberes – Construindo o Dossiê Sobre os Impactos do Agrotóxicos na América Latina, na noite desta terça-feira, 22, reuniu centenas de estudantes, professores e interessados na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará.

Ao ar livre, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos colocou em questão a ideia de desenvolvimento, defendeu a necessidade de espaços nos quais as diferentes formas de construção de conhecimento e de experiências sejam valorizadas e propôs, como método, o que chama de Ecologia de Saberes: o saber baseado no diálogo entre formas distintas de conhecimento e de experiências.

Para ele, a ideia de que os países devem perseguir o desenvolvimento é a face contemporânea do capitalismo neoliberal, que cria movimento sem precedentes de exploração dos recursos naturais, destruindo ou deslocando populações inteiras.  Mas as alternativas a essas ideias de desenvolvimento já estão presentes em ideias como as de autodeterminação dos povos, vida sã, soberania alimentar,  economia familiar e camponesa, reforma agrária, agricultura familiar, agroecologia, direitos humanos, dignidade, reservas de territórios, quilombos. “São esses termos que precisamos usar cada vez mais, mas usar não é fácil porque nossas universidades não os reconhecem”, lembrou.

Vem desse tipo de reflexão, portanto, a necessidade de valorizar formas de conhecimento para além do acadêmico, possibilitando que formas distintas de conhecer e vivenciar o mundo sejam partilhadas e validadas. “Cada forma de conhecimento é útil para algo, mas nenhuma funciona para tudo. Grande parte dos conhecimentos nos separa das práticas. Por isso é preciso começar a usar a ideia de ecologia de saberes. Precisamos desaprender”, defendeu.

Abertura

As primeiras atividades da noite foram apresentações de grupos culturais de Fortaleza. “Dança, poesia, música, academia, movimentos sociais, são várias vozes e saberes que merecem ser escutados e reconhecidos como saberes que juntos podem transformar o mundo”, disse Fernando Carneiro, pela organização do evento, que deverá ter como resultado o início da construção de um dossiê que reúna informações sobre o impacto do uso de agrotóxicos nos povos da América Latina.

A expectativa é que o Dossiê seja um instrumento político que possa explicitar as contradições do modelo de produção do setor financeiro capitalista na agricultura, baseado no uso de agrotóxicos, na opinião de Cleber Folgado, representante da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida. “A construção desse tipo de informação representa um marco para lutadores e lutadoras do campo que pensam em construir novo modelo de agricultura com base na produção de alimentos saudáveis.”, defendeu. Para além das informações técnicas, ele acredita que o documento poderá expressar o sentimento, a diversidade e a riqueza de conhecimento das populações que vêm sofrendo os efeitos do modelo atual.

O secretário de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde, Odorico Monteiro, defendeu que uso de agrotóxicos seja discutido como questão de saúde pública e saudou a criação de uma rede internacional de pesquisadores que ajude a tomada de decisão dos governos. Ele afirmou que o dossiê será levado a discussão pelo Conselho Nacional de Saúde para subsidiar políticas públicas.

Também estiveram na abertura Luiz Eugênio de Souza, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), autora do dossiê brasileiro sobre agrotóxicos, e a representante da reitoria da UFC, Marcia Machado.