De um lado, os avanços do agronegócio brasileiro. De outro, os impactos à saúde e ao meio ambiente causados pelo uso dos agrotóxicos. O embate gerou uma rica discussão no Auditório Jatobá na quarta-feira, 17, durante a Reunião Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) no Campus Rio Verde.

A mesa-redonda teve início com a exposição do chefe-geral da Embrapa Arroz e Feijão, Alcido Elenor Wander, que mostrou à plateia um panorama do agronegócio brasileiro no que se refere à pesquisa, à tecnologia e à inovação, bem como o reflexo desses investimentos na economia do País. De acordo com Wander, ao investir na “agricultura baseada em ciência”, o Brasil aumentou sua produtividade nas últimas décadas e tem hoje uma produção intensa e bastante diversificada. “Somos um gigante mundial do agronegócio”, resume.

Entre os benefícios que tais títulos trouxeram aos brasileiros, o profissional citou alguns Índices de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) – que têm como parâmetros a educação, a renda e a saúde da população. De acordo com ele, esses indicadores melhoraram nas cidades cuja principal atividade econômica são a agricultura e a agroindústria. Outra informação relevante trazida pelo pesquisador foi que o custo da cesta básica no País caiu pela metade nos últimos anos. “Na década de 70 não havia produção de alimentos suficiente e os preços, naturalmente, eram mais altos”, justifica. Além disso, o Brasil possui um mercado interno expressivo e, com isso, não depende somente das exportações.

Essas conquistas ocorreram, conforme o chefe da Embrapa, pela atuação do Estado como agente público na agropecuária. “Por meio da pesquisa pública, transformamos solos pobres em áreas produtivas”, explica, exemplificando que a soja era uma cultura do Sul do Brasil e hoje é produzida em todo o país. “Graças à fixação biológica do nitrogênio, os 34 milhões de hectares de soja cultivados não receberam fertilizante nitrogenado – uma economia de 42,3 bilhões de reais para os agricultores”, complementa. Wander lembra, ainda, que a Embrapa tem hoje 80 diferentes programas de melhoramento genético de plantas e animais.

Em relação aos desafios a serem enfrentados pelo agronegócio brasileiro, o profissional elenca melhorias em relação à infraestrutura, como armazenagem e logística; o fim da importação de nutrientes e a implementação de mecanismos mais eficientes para o controle de qualidade. “É preciso mudar a reputação do País de produtor de produtos baratos para produtor de produtos de qualidade”, explica.

Veneno

Após a apresentação de Wander, o pesquisador da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), Fernando Ferreira Carneiro, trouxe o que descreveu “o outro lado da moeda” e fez uma defesa forte e impactante contra o consumo de agrotóxicos no País – ou “veneno”, como faz questão de caracterizá-los. “Se não pensarmos em produção de qualidade com preservação da saúde e do meio ambiente seremos gigantes de pés de barro”, provoca o profissional,  que também é membro da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Para justificar suas afirmações, Carneiro mostrou que em um período de 14 anos, o brasileiro aumentou em mais de 200% o consumo de agrotóxicos, enquanto que a área plantada só cresceu 12%. Além disso, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 80% do uso dessas substâncias são utilizados em grandes propriedades, ou seja, com mais de 100 hectares. No que se refere a Goiás, de acordo com o pesquisador, o estado ocupa o quinto lugar na taxa de consumo de agrotóxicos por habitante.

“Não há dúvidas científicas de que uso dessas substâncias provoca danos”, reforçou o expositor, apontando indícios de que o agrotóxico mais vendido no país é um provável carcinógeno, ou seja, pode causar câncer. Segundo Fernando, coincidentemente ou não, no Ceará 38% da incidência de câncer ocorre em municípios cuja agricultura é a principal fonte econômica. O pesquisador trouxe, ainda, exemplos de desastres ambientais ocorridos no município de Lucas do Rio Verde, situado em Mato Grosso, devido a pulverizações aéreas ilegais que contaminaram propriedades e moradores. Outro caso, local, deu-se no assentamento Pontal do Buriti, no município goiano de Rio Verde, sede da Reunião Regional da SBPC, cuja pesquisa – em parceria com o IF Goiano – rendeu inclusive um livro lançado durante o evento, o “Campo, Floresta e Águas – Práticas e Saberes em Saúde”.

A agroecologia, segundo o pesquisador, pode ser uma alternativa para reverter esse cenário. “A área plantada de alimentos orgânicos está cada vez maior, pois as pessoas querem se alimentar com qualidade”, destaca.  O pesquisador apontou, também, tentativas do poder público em favor de reduzir as facilidades para produção, importação, registro e uso de agrotóxicos no Brasil, como o Plano Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara) – proposto em 2012, mas que não chegou a ser lançado. Para Fernando, conflitos de interesses impedem que haja avanços nessa perspectiva. “Existe uma hegemonia política, econômica, jurídica e acadêmica em favor dos agrotóxicos”, justifica.

Carneiro ressaltou a gravidade do projeto em discussão do Congresso que facilita o registro, a venda e a utilização de agrotóxicos no País, o chamado “Pacote do Veneno”, que poderá ser votado no dia 29 de maio. “Cerca de 70% da Comissão que analisa esse projeto é da Bancada Ruralista. Querem passar um trator no debate científico. Será que queremos um campo vazio de gente, só com máquinas e agrotóxicos?”, questionou.

Fonte: IF Goiano, com colaboração do Jornal da Ciência