Documentário retrata a luta de pescadores e pescadoras de Ilha de Maré contra a poluição química causada pela Petrobras

“Eu tinha doze anos quando meu pai apresentou esse monstro pra gente”, fala Marizélia Lopes, pescadora de Ilha de Maré e uma das líderes do Movimento dos Pescadores e Pescadoras (MPP), apontando para a refinaria da Petrobras em Madre de Deus, na Baía de Todos os Santos.

O episódio narrado é uma das cenas do documentário “No Rio e no Mar”, dos diretores holandeses Jan Willem Den Bok e Floor Koomen, que foi lançado (26/09), na internet (acesse aqui). O documentário foi lançado em 2016 e concorreu em março, desse mesmo ano, na 18a edição do Festival de Cinema da Anistia Internacional, “Movies that matter”, na cidade de Haia, na Holanda. A obra cinematográfica não ganhou o prêmio principal, mas recebeu uma menção honrosa, ficando com o segundo lugar, entre os dez documentários que concorriam na categoria.

As filmagens foram feitas nos anos de 2014 e 2015 e mostram o embate travado pelos pescadores e pescadoras de Ilha de Maré contra a Petrobras e outros empreendimentos petroquímicos que poluem a baía de Todos os Santos e prejudicam o modo de vida das comunidades pesqueiras locais.

O documentário acompanha as pescadoras e ativistas do MPP, Eliete Paraguaçu e Marizelia Lopes, ou “Nega”, como é conhecida, nas tentativas de denunciar os problemas que estão afligindo a comunidade. Entre as dificuldades para enfrentar a problemática da poluição, uma característica da sociedade brasileira se revela com força: o racismo ambiental. O conceito que começou a ser formulado nos anos 90, trata de políticas e práticas que prejudicam predominantemente grupos étnicos vulneráveis, como o que acontece com a comunidade quilombola pesqueira de Ilha de Maré.

No filme é possível ver também as graves consequências do acidente com o navio Golden Miller, na saúde dos pescadores. Em 17 de dezembro de 2013, o navio das Bahamas espalhou uma mancha de óleo pela Baía de Todos-os-Santos que chegou até a Ilha de Maré. Problemas de pele e altos índices de chumbo no organismo das crianças alertam para a gravidade da situação e são revelados pelo filme que aponta ainda a grande contradição existente entre o discurso oficial do governo brasileiro, que aponta orgulhosamente a Petrobras como a maior companhia do hemisfério sul, omitindo no entanto uma série de direitos que a mesma empresa viola.

“O documentário ajuda a gente a denunciar o quanto a baía de Aratu está degradada, aponta também as violações de direitos que acontecem, o impacto desses empreendimentos na nossa saúde e na vida da gente”, denuncia Marizélia Lopes. “Esses empreendimentos fizeram com que Ilha de Maré deixasse de ser o paraíso que era”, lamenta Marizélia.

Festival Movies That Matter

O festival Movies That Matter acontece anualmente na cidade holandesa de Haia e tem a Anistia Internacional como uma das realizadoras. Cerca de 25 mil pessoas participaram da 18a edição do festival, em março de 2016.

Além da exibição dos filmes, o festival promove também um diálogo entre os atores dos Direitos Humanos através de debates e encontros entre Organizações Não Governamentais.  Foram promovidos 10 encontros entre atores ligados à temática. O filme “No rio e no mar” foi exibido três vezes no festival e nos debates contou com a participação de Eliete Paraguaçu, uma das protagonistas do filme, e Marcos Brandão, advogado do Conselho Pastoral dos Pescadores da Bahia.

Fonte: http://peloterritoriopesqueiro.blogspot.com.br/2016/09/no-rio-e-no-mar-e-lancado-hoje-2609-na.html