Um olhar sobre o que o promove a saúde e o que ameaça a vida de comunidades que vivem em áreas de campo, floresta e águas. Foi com esse retrato que se deu a oficina sobre a Pesquisa da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, Floresta e das Águas (PNSIPCFA), que aconteceu no dia 27 de julho, durante as atividades pré-congresso do 11º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (11º Abrascão), em Goiânia.

A oficina foi uma das primeiras atividades realizadas pela Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde (SGEP/MS) no evento. Seu objetivo foi apresentar os resultados dessa pesquisa, que buscou levantar informações sobre saúde em nove territórios, nas cinco regiões do país, que abriguem populações cujos modos de vida e trabalho estejam relacionados com a terra e as águas, como trabalhadores rurais, camponeses, ribeirinhos, pescadores, quilombolas e extrativistas.

RESULTADOS – De modo geral, além das dificuldades de acesso aos serviços de saúde, outro desafio a ser superado nos nove territórios pesquisados – localizados na Bahia, Pernambuco, Tocantins, Goiás, Pará, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul – foi a formação dos profissionais de saúde para atuar com a realidade das populações do campo, floresta e águas. Entre os fatores que promovem a saúde foram destacadas a biodiversidade, a agricultura familiar, as plantas medicinais, o artesanato, o cooperativismo, a culinária e os saberes tradicionais. Já entre os que ameaçam a saúde, foram evidenciados mais fortemente o uso de agrotóxicos, a falta de saneamento e de água tratada, e a pobreza.
Os resultados demonstram que a melhoria da saúde dessas populações vai muito além do acesso ao serviço e precisa envolver um olhar ampliado sobre a saúde, que abarque questões como trabalho, posse da terra, preservação do território e do saber tradicional, qualidade de vida, modelo de desenvolvimento econômico atual e cidadania. “Os achados nos nove territórios pesquisados são uma pequena amostra da realidade vivenciada pelas populações do campo, da floresta e das águas. Agora o nosso próximo passo é produzir uma grande pesquisa, a partir dos achados levantados e com o desafio de manter essa construção colegiada e integrada entre a gestão, a academia e o movimento social”, destacou a diretora do DAGEP, Kátia Souto.

METODOLOGIA – Com uma metodologia inovadora, a pesquisa foi construída e trabalhada de forma colegiada e participativa. Para isso, seu desenho foi feito com a participação dos movimentos sociais. A equipe que foi a campo para coletar dados e sistematizar os resultados foi formada por pesquisadores acadêmicos, mas também por pesquisadores populares escolhidos entre os membros da própria comunidade pesquisada, o que permitiu agregar vivências e saberes sociais à pesquisa. “Essa foi uma pesquisa centrada na ação, onde a comunidade pesquisada deixou de ser apenas sujeito de pesquisa e passou a ser também pesquisador. Esse é um impacto importante no modo de fazer ciência”, destacou o coordenador do Obteia, Fernando Carneiro.

A PESQUISA – As apresentações dos resultados de cada território foram feitas pelos pesquisadores acadêmicos e populares, que também relataram como se deram os processos de operacionalização das oficinas na comunidade e de identificação das necessidades e condições de saúde das populações estudadas.

Financiada com recursos da SGEP/MS, a pesquisa foi coordenada pelo Observatório da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, Floresta e das Águas (Obteia) – projeto do Núcleo de Estudos em Saúde Pública (Nesp) da Universidade de Brasília, desenvolvido em parceria com o Departamento de Apoio a Gestão Participativa (DAGEP/SGEP/MS).

Tanto Observatório quanto a pesquisa também contam com o apoio do Grupo da Terra. Espaço consultivo de participação social do Ministério da Saúde, o Grupo reúne representantes dos movimentos sociais do campo, da floresta e das águas e é responsável por monitorar a implementação da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCFA).

NOVE TERRITÓRIOS – No estado do Nordeste foram três territórios pesquisados: o assentamento rural 1º de Setembro em Tauá (CE), as comunidades de pescadores e marisqueiras da Ilha de Maré (BA) e três comunidades rurais do Vale do São Francisco localizado entre Petrolina (PE) e Juazeiro (BA).

Na região Centro-Oeste foram dois territórios pesquisados, um no estado de Tocantins e outro em Goiás. Em Tocantins foi pesquisada a região entre os municípios de Bico do Papagaio, Babaçulândia e Filadélfia, que hoje abrigam as 74 famílias que foram desapropriadas da Ilha de São José, inundada após a construção da Usina Hidrelétrica de Estreito, no rio Tocantins, em 2010.

Já no estado de Goiás, o território pesquisado foi o assentamento rural Pontal dos Buritis, localizado próximo à cidade de Rio Verde, um dos maiores pólos da agroindústria no país. O assentamento ficou conhecido nacionalmente após episódio ocorrido em 2013, quando cerca de 100 alunos e professores da escola de São José do Pontal foram intoxicados por agrotóxicos após um avião pulverizar a escola que fica próxima a uma lavoura de soja.

No Norte do país, a pesquisa ocorreu na região de Melgaço, uma das localidades com o menor IDH do Brasil e que abriga populações ribeirinhas da Ilha de Marajó, no Pará. Enquanto na região Sul o Assentamento Santa Rita de Cássia 2, no município de Nova Santa Rita (RS), trouxe a experiência de organização do movimento social para ter acesso ao SUS, o que permitiu a instalação de uma Unidade de Saúde da Família dentro do assentamento.

Na região Sudeste, a pesquisa se deu no sul do estado do Rio de Janeiro e norte de Minas Gerais. No Rio de Janeiro o território pesquisado foi o do Quilombo Campinho da Independência em Paraty, que reúne 150 famílias que vivem do turismo ecológico, artesanato e agricultura familiar. Já na região do semi-árido mineiro, o território do município de Grão Mogol foi o selecionado pela pesquisa, a área caracterizada pela grande extensão territorial e dispersão das comunidades rurais tem nas indústrias da monocultura de eucalipto e da mineração sua principal atividade econômica.

ENCAMINHAMENTOS – Até o final deste ano deverá ser lançado um livro com os resultados da pesquisa em cada um dos nove territórios. Um cronograma para devolver às comunidades pesquisadas os resultados do trabalho também será elaborado e as atividades contarão com a presença de todos os participantes das oficinas, além de gestores e profissionais de saúde.

“Para garantir a institucionalização desse processo e sua viabilidade, é necessário que os movimentos locais possam se fortalecer para dialogar com a gestão local do SUS, fazendo com que essas propostas para melhoria do acesso sejam incluídas nos Planos de Saúde dessas localidades”, finalizou Kátia Souto.

Fonte: http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/sgep/sgep-noticias/18879-sgep-apresenta-primeiros-resultados-de-pesquisa-sobre-saude-das-populacoes-do-campo-floresta-e-aguas